Mateus Gandara: voa voa andorinha!


Mateus

 

Há dois anos atrás eu conheci esse lindo rapaz: Mateus Gandara. Estávamos numa imersão terapêutica para curar as dores infantis e na oportunidade ele contou ao grupo que tinha câncer e que naquele momento a doença estava “deixando-o viver”. Me lembro que me admirou uma pessoa naquelas condições estar ali em busca de entender e resolver seus sentimentos de criança, pois a gente costuma ter a sensação de que a morte é um recomeço e, no caso dele, ele sabia que ela estava rondando-o e que poderia não ter muito tempo mais.

A presença dele não era comum, ele não era uma pessoa normal. Havia algo de muito diferente nele e eu confesso que me assustava. Acho que eu tinha medo de compartilhar da mesma visão que ele tinha do todo. Às vezes eu me sentia constrangida em estar perto dele e eu nunca entendi esse sentimento. Encontrei-o há aproximadamente dois meses numa palestra do ossobuco. Tinha algo naquele olhar que eu não pude captar. Mas somente nos cumprimentamos.

Ontem ele se foi. E sua passagem foi como um soco no estômago pra mim. Eu nem me sinto no direito de estar tão mexida com sua passagem, pois eu não era tão próxima. Mas eu não posso negar que abalou minhas estruturas e que me trouxe inúmeras reflexões.

Passamos a vida toda aceitando a vida sem questioná-la. O que é a vida? O que é a morte? Quem somos nós? O que estamos fazendo aqui? O que significa esse tanto de sentimentos que temos? Por que sonhamos? O que tem por trás disso tudo? Nascemos com uma única certeza na vida, que é a da morte, mas vivemos na ilusão de que ela nunca vai acontecer. E cada dia mais desperdiçamos um pouco da nossa vida.

A partida do Mateus me trouxe a pensar o quanto dou valor à minha vida. Ele era um menino que amava viver, era sedento por isso. Lutou bravamente a cada dia por um pouco mais de vida. E na limitação de sua própria vida ele entendeu que a única coisa que valia à pena era o amor. E isso fez com que cada dia mais ele deixasse todo o resto de lado e só amasse. Ele amava de uma forma tão direta, tão fácil, tão simples. Ele simplesmente chegava perto de vc e te amava. Eu nunca entendi porque.

Mas hoje muitas fichas estão caindo, Mateus. Um urgente chamado para acordar ainda mais. Para viver cada minuto da vida como se fosse o último, pra deixar a timidez, o medo e tudo o mais que tiver de lado me atrapalhando a amar. Simplesmente me entregar para o amor, pois é ele que vale à pena. É pra isso que estamos aqui. Essa oportunidade é única e ela é finita. A oportunidade de experienciar um corpo físico, sensações, emoções, prazeres, alegrias, dores. Há a mensagem clara para deixar de focar no que é ruim e perceber a beleza de cada minuto, agradecer a oportunidade de estar vivo, mas sem se esquecer de que um dia essa experiência acaba. E esse dia pode ser hoje.

Você sabia que a vida continuava fora daqui e por isso trabalhava seus sentimentos, pois iria levá-los com você. Na última vez que cruzamos o olhar, era um adeus. Fico me perguntando como devia ser para você ao ver todos desperdiçando tanto suas próprias vidas, enquanto sabia que a sua estava prestes a acabar!

Me conforta um pouco saber que nos últimos anos você aproveitou sua vida muito mais do ela inteira. Que você teve muitas oportunidades de se despedir dos que ama e de dizer isso a eles. Que você se permitiu ser você mesmo, sem máscaras e ilusões.

Não conheço a história da sua alma, mas creio que tudo tem um propósito divino. Essa doença veio pra te ensinar algo muito importante e provavelmente o fim chegou porque você concluiu o aprendizado. Se o propósito era fazer você dar valor à vida, eu te digo que você não só aprendeu como ensinou muita gente, me ensinou. E eu espero que onde você esteja tenha tanta vida quanto você buscava e que você possa continuar fazendo o que aprendeu: amar com toda a plenitude do seu ser.

Agora não há mais o fardo da doença, agora você é livre como um pássaro e eu desejo do fundo do meu coração que você esteja muito feliz. Você deixou marcas e eu te agradeço pelo exemplo e pela oportunidade de aprendizado.

Voe em paz, andorinha! Ame em paz!

Dani Carneiro

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Sobre Dani Carneiro

Apaixonada por comida boa!
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5 respostas para Mateus Gandara: voa voa andorinha!

  1. Carla Mattos disse:

    Sem palavras diante da sensibilidade e delicadeza de seu texto…depois de você ter me proporcionado um delicioso almoço com suas receitas, resolvi navegar em seu blog e me deparo com esse carinho que Mateus, certamente, deve ter recebido lá, junto às estrelas…
    Beijo no seu coração!

  2. Dani… fica difícil escrever com os olhos marejados. Cheguei aqui buscando inspiração para um simples molhinho de hambúrguer e acabei lendo este texto tão maravilhosamente sensível, que me emocionou muito, dado o momento de vida que atravesso e do qual, obviamente, você não faz ideia. Adorei te conhecer através deste “flash” de tua alma. Obrigada por compartilhar tuas reflexões. O olhar do Mateus se canalizou em você, chegando até mim.

  3. Concita Varella disse:

    Que linda homenagem. Que valioso aprendizado. Vá com Deus, príncipe, Mateus.

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